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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Breve ensaio sobre a violência atual na Capoeira


Para a maioria dos mestres de capoeira, mormente os que estão com mais idade cronológica, a capoeira está passando momentos muito tensos em sua existência.
Apesar de muitos acharem que estamos vivendo um momento de bonança, muitos de nós também sabem que já estivemos em melhor situação...

Se compararmos o número de capoeiristas dos dias atuais (maio/2010) com a segunda metade dos anos 90 (1995 a 2000), sabemos que houve uma redução incrível no número de praticantes e de adeptos matriculados nos grupos, nas escolas, nas academias de capoeira.

Naturalmente o número de graduados aumentou, em particular se considerarmos isso proporcionalmente... (ver artigo neste blog denominado de “A pirâmide Social da Capoeira”).
Teríamos uma explicação óbvia, se aceitássemos o fato de que vivemos dias tensos nesse período, inclusive com diversas mortes violentas dentro de rodas de capoeira em diversas cidades e regiões do Brasil.

Para ilustrar essa estatística, encontramos no google.com uma amostra de páginas contendo a expressão “violência na capoeira” de mais de 22 mil ocorrências (busca realizada em 19MAI2010).

Ora, embora o mercado da violência seja indiscutivelmente grande, já que sabemos do sucesso dos vale-tudo desde a época de Nero, sabemos também que uma coisa é assistir alguém se matando em um ringue e outra coisa é ir para uma escola onde isso seja o tema do aprendizado, como passou a acontecer na ultima década do século vinte.

Todos sabemos e acompanhamos o sucesso que fazem os filmes que lidam com combates mortais, como o “mortal kombat”; “Cão de Briga”; “Dragão Branco”, entre N outros...
Por essa razão acredito que tenha havido um enfraquecimento da procura por aulas de capoeira no período seguinte a essa explosão.

É fácil perceber que a quantidade de praticantes tenham contribuído para esse descontrole e pelo aparecimento de conflitos muito sérios entre os grupos de praticantes.

Obviamente existe por tradição uma espécie de “síndrome de malta” (conceito batizado por mim, à revelia da comprovação científica, já que essa exige tempo demais para atender às suas mazelas metodológicas...), onde os capoeiristas desenvolvem – por orientação do seu mestre ou não – uma xenofobia velada ou declarada aos praticantes afiliados a outros grupos, normalmente onde se atribui adjetivos pejorativos ou irônicos a esses sarobeiros designação que vem sendo muito utilizado dentro dessa visão e contexto.

Diante desse crescimento, muitos capoeiristas se projetaram, se desenvolveram ou se afirmaram no mercado dos valentes, dos competentes ou dos resistentes, mercado que passou a ser bem atraente mesmo para uma chance econômica bem razoável de crescimento e de fixação de espaços de trabalho.

Logicamente desencadeou-se uma concorrência muito grande entre os grupos, que passaram a disputar os alunos que ofereciam maiores chances de se desenvolverem, ou por mercados mais lucrativos, como em áreas de população de melhor renda, assim como em países da Europa ou dos Estados Unidos.

Mas existe uma Lei do capitalismo que diz que toda vez que uma procura floresce, a oferta também cresce, na busca natural desse mercado...
Foi aí que a oferta passou a ser maior que a procura de novo, justamente quando a decadência moral da competitividade desvairada e sem controle se tornou uma forma de violência tanto simbólica – com as críticas aos pacíficos como sarobeiros, dançarinos, etc., ou com os conflitos entres os que se colocaram do lado da capoeira contemporânea, que até aqui não tem uma definição ou conceito claro para mim, sendo apenas uma maneira de justificar a indiferença a rituais ou tradições mais antigas, ligadas à capoeira Angola ou à Regional, essa última dentro dos preceitos do seu criador, Mestre Bimba.

O crescimento dos grupos que passaram a desprezar as tradições e os rituais das rodas que seguiam os mestres mais antigos da capoeira, caíram nas graças da mídia, por razões óbvias, já que a identificação com os esportes radicais sempre foi muito mais interessante para a imprensa sensacionalista de nosso tempo do que a ludicidade ou a ritualidade, tradições culturais, projetos de interesse social (grande numero de projetos de capoeira seguem para esse mercado), aspectos filósóficos sem sentido para a imprensa que busca a morbidez de nossos tempos, que se encontram nas praticas tradicionais.

Ora, sem o controle das rodas através de rituais e da presença dos mestres detentores da cultura tradicional, a roda de capoeira se tornou uma espécie de circo acrobático e estéril, onde o mais importante nos cinco a dez segundos que cada um tem para se apresentar, é fazer o maior numero de movimentos sensacionais possíveis e passou-se a desprezar completamente o diálogo de perguntas e respostas típico da capoeira tradicional.

Os capoeiristas passaram a fixar seu aprendizado e desenvolvimento, buscando e assimilando movimentos acrobáticos o mais sensacional possível, passando a ser esse o maior mérito a ser demonstrado pelos atletas-acrobatas no seu desempenho dentro das rodas.

O ritmo dos toques de berimbau desfigurou completamente a musicalidade tradicional – conforme são executadas seguindo a regional ou a angola – tornando-se uma espécie de roque frenético cujo tempo para a performance de cada jogo dura no máximo dez segundos, portanto, busca-se usar ao máximo esse tempo fazendo o maior numero de peripécias possíveis e sendo aclamados pela platéia, participantes da roda ou da assistência em volta.

A aceleração dos instrumentos passou a ser naturalizada de tal maneira que hoje em dia é muito pouco aceito o andamento dos toques seguindo o ritual da tradição.

Com isso, infelizmente, os capoeiristas mais velhos ou ligados à tradição independentemente de sua idade, passaram a não ter lugar nessas rodas pós-modernas.

Quando alguém inicia uma roda com um toque próximo do ritmo da tradição, é rapidamente substituído por outro atualizado com o pós-modernismo do são bento grande sideral...

Aí a roda acontece! Pelo menos para os que só conhecem isso. Uma vez que muitos ditos mestres de hoje desconhecem os rituais tradicionais ou simplesmente os desprezam, por considera-los antigos.

Claro que após um tempo acostumados com esse frenesi, os capoeiristas dessa geração se entediam rapidamente com os ritmos tradicionais, ou com os rituais, onde os parceiros jogam até esgotarem sua capoeiragem ou seu interesse naquele mesmo jogo.
E o que temos agora, via de regra, é uma capoeira que não corresponde mais a nada do que era conhecido há dez ou vinte anos passados.

Temos sim, uma retradicionalização baseada nas mesmas fontes dos esportes radicais e do hip hop estadunidense. Influências implícitas nos movimentos acrobáticos, nos estilos de cantoria, no andamento do instrumental, na força agressiva do côro, criando uma nova era na capoeira, sem dúvida alguma a pós-modernidade capoeiristica do novo milênio. Pelo menos temos assim uma maneira de encarar esse fenômeno.

Queixas contra isso? Não. Ninguém tem poder sobre isso. Nada pode deter o avanço dos tempos e dos movimentos humanos rumo à sua plenitude...

Alguns aspectos, no entanto, precisam ser considerados, sendo eles interessantes ou não para a maioria dos praticantes emergentes dessa nova modalidade:

a) a aceleração do ritmo afastou o capoeirista da tradição dialogal da capoeira regional ou angola, fazendo com que os jogos sejam muito mais uma evolução dos solos aos pares que são executados;

b) os capoeiristas estão trocando o relacionamento no nível da roda para uma performance individual e longe das tradições da capoeira (a afirmação do capoeirista sempre foi um fenômeno interativo e coletivo, e estamos ingressando há muito no terreno do individualismo, conforme prega também a cultura dos norte-americanos);

c) como já previu o Mestre Decânio há mais de dez anos, o capoeirista está jogando sem se relacionar com a vibração do berimbau, tornando-se um praticante de uma outra forma de arte, indiferente ao berimbau, pois o ritmo do jogo tornou impossível esse diálogo. Teremos que desenvolver outro conceito, já que o berimbau sempre foi a alma do jogo;

d) o movimento muito acelerado de jogo está produzindo um enorme contingente de atletas lastimados em diversas partes do corpo, mormente os joelhos, coluna, calcanhares, ombros, principalmente; alguns deles tiveram ou terão que abandonar o esporte decorrente de suas lesões;

e) o afastamento dos mestres mais antigos da roda, traz como conseqüência a perda da tradição oral inerente à pratica da capoeira, arte de origem e identidade afro-brasileira, onde o ancião é e sempre foi um portador da cultura, ausente esses mestres, as tradições se perderão e se tornarão cada vez menos conhecidas, eventualmente sendo substituídas por outras coisas;

f) o ritmo frenético dos instrumentos, acelera muito os batimentos cardíacos e o estresse dos praticantes, propiciando conflitos e confrontos entre os atletas, sendo muito difícil alguém controlar os ânimos quando a aceleração da música se torna exagerada demais.

É possível fazer alguma coisa??
Existe alguma coisa para ser feita??
Existe algum movimento nesse sentido??

Essas são questões que devem ser respondidas por cada um de nós. Particularmente os mais antigos capoiristas, professores, mestres e contra-mestres, que se sintam portadores da cultura tradicional, a capoeira de raiz...

A capoeira que chegou até os anos recentes da nossa História.

A capoeira que emancipou muitos atletas... Muitos capoeiristas. Muitos homens. Muitas mulheres.
Dentro da minha limitação pessoal tenho que confessar uma coisa: esta é a única capoeira que conheço um pouco!!

6 comentários:

  1. Obrigado Mestre por este texto! Estamos vivendo na era infotecnologica onde tudo acontece rapido e a capoeira infelizmente também muitas vezes esta seguindo o mesmo caminho..

    Sven

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  2. Salve Mestre Squisito, é incrivel a sua capacidade de expressão, como o Sr. aborda os temas que tenho lido. Sou um aluno que busco apender de todas as formas e não só na hora do treino, acredito que isso se justifique pelo fato de eu ja ter 22 anos, não sou um aluno infantil, vejo que falta um incentivo maior pra essa criançada que vive na internet e até vêm capoeira, porém só vêm os videos, e normalmente os videos violêntos que como o Sr. falou lhes causa mais interesse. Como na comuniade em geral temos que trabalhar a educação na fase inicial, pois depois que se aprende errado pra reverter é mais difícil. Parabés pelo texto, concerteza vou repassar pra todos aqui do Ceará.
    Um forte abraço Mestre.
    Por Júnior Voador_Terreiro Ceará.

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  3. Grande irmão, aquele axe.
    Vamos aos "comentários"...
    Você transita com facilidade nos caminhos dos assuntos abordados. Sendo seu contemporâneo, na capoeiragem, tenho conhecimento de causa para poder concordar com suas observações.
    No seu livro, Os Caminhos do Berimbau, você faz uma espécie de desabafo de um capoeira que ta de “saco cheio” por causa de muita coisa na capoeira.
    Alguns anos depois, surge agora esse seu texto com, na minha opinião, as mesmas características do livro, ou seja um desabafo de (mais) um capoeira.
    Não tenho uma solução, Skisito, para essa problemática da quase total perda de valores tradicionais da capoeiragem. De fato na grande maioria dos jogos do “novo capoeirista” o que se vê na verdade são dois capoeiristas fazendo um jogo individual, apenas com o detalhe de estarem dividindo o mesmo espaço. Mas não interagem, não se “questionam” e não “se respondem”, também por causa da ausência de jogo.
    Para platéia, leiga como sempre, “aquilo” é uma maravilha. Pois as atividades circenses sempre foram bem recebidas por um público que não necessariamente tem que entender o que se passa, apenas apreciar saltos, contorcionismos e movimentos olímpicos bem executados.
    Lamento, mas acho que a capoeira é muito mais do que isso que se vende (e se paga caro) hoje em dia e em nome de uma “evolução” da arte.
    Alias, bem perigosa essa coisa de evolução, pois a julgar pelas transformações fomentadas por uma “globalização” não menos nociva e castradora, me pergunto o “que” poderão estar chamando de capoeira num futuro não muito distante. Eu diria, dentro de vinte anos, ou menos...
    Grande abraço do seu irmão,
    Umoi.

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  4. Oi Pai! realmente, eu tentei ler seus textos, mas são complexos demais para mim hahahahahahaha, mas mandou bem paizão! te amo ♥
    um beijo, Taynara

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  5. Daniel Barata

    Luz e Paz Mestre

    Eu também não vejo solução para essa doença.
    Mas acredito que se começar uma corrente para desvincular a capoeira da "arte de luta", que cria como diz o Mestre Agoleiro a PRATILEIRA DA CAPOEIRA em um contesto mercadológico, ai sim começaremos uma nova contemporanidade evolutiva.

    Mestre, eu tenho esperança.
    E conto com o senhor


    Obrigado

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  6. Mestre Squisito, gosto de ler a sua produção, mas esse texto... Me senti no meio dessas linhas. Estou ligeiramente afastado da capoeira por alguns motivos, e, abestalhado, me emocionei com suas letras. Muito obrigado por me entender!

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