siga por Email!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ego na Capoeira - ego, esse miserável!!


Neste espaço irei procurar expressar um pouco mais do que venho a algum tempo observando sobre o Ego na capoeira, que, aliás, será tema para um livro que pretendo trabalhar futuramente.

Infelizmente tenho que admitir que na capoeira o ego se tornou algo patológico com configurações de epidemia.

Mas por que? Será que a prática da capoeira passou a produzir um estado egóico nos seus seguidores? Ou seria parte do processo de auto-superação atual da prática capoeirista, a qual produziria como efeito colateral uma espécie auto-estima exacerbada e patológica no individuo?

Ou será ainda uma conseqüência natural do fato que os capoeiristas têm que fazer frente ao injusto mundo dos dominadores?

Veja que nessa última hipótese, a “culpa” seria da questão política enfrentada como parte do processo libertário desenvolvido pelos capoeiristas, pelo menos dos capoeiristas que original e historicamente eram pessoas das camadas mais baixas da população, massacrados por anos e anos de dominação inicialmente dos brancos, mais tarde a burguesia, como costumam se referir os marxistas e os ativistas mais panfletários.

Hoje isso se converteu e foi incorporado pelo discurso da classe média praticante de capoeira, a qual dispõe sempre de acesso à toda sorte de mídia e, com isso, temos tais explicações sempre convincentes, usadas como arrazoados para posturas questionáveis, como o individualismo, o narcisismo e o próprio egoísmo, para acobertar e proteger a tantos de nós mesmos de qualquer forma de cobrança, de crítica ou de responsabilidade por atos tão degradantes que encontramos na capoeira.

Para não ficar parecendo um estudo acadêmico de teorias baseadas em hipóteses dificilmente verificáveis no nosso meio, alguém poderia perguntar onde e como se manifesta esse tal de EGO...?

É impressionantemente presente esse fenômeno. Podem crer. O culto de si mesmo seja qual for a forma que isso se manifesta, é manifestação do ego...

• Muitas questões que existem dentro da capoeira, como incompatibilidades entre pessoas ou grupos, via de regra é produto de algum ego declarado o sutilmente ocultado através dos discursos politizados que descrevi acima.
• A formação negativa ou deformada de muitos capoeiristas que se comportam de modo deselegante ou mal-educado nas rodas, seja cantando (via de regra desafinados ou gritando igual a pavão solteiro!), muitas vezes quando existem outros mais graduados ou mestres na roda; as vezes exigindo privilégios nos eventos, como participar da roda dos graduados ou de mestres. Querendo ser dispensados das taxas e pagamentos pelos cursos ou camisetas. É ego.
• O desrespeito a novatos, deixando-os muitas vezes horas nas filas das rodas sem chance de jogar, insensíveis a isso. É ego.
• Tirar um mestre mais antigo que está na roda jogando, impedindo-o de ter sua liberdade de escolher quando sair da roda. É ego.
• Tentar subjugar ou agredir outro capoeirista, ou um companheiro, do mesmo grupo ou de outro, muitas vezes violentamente, apenas por uma atitude inconsciente ou pela falta de técnica em do novato em um movimento, tenha ou não atingido-o, desde que pareça que o mesmo ameace o graduado. É ego.
• Impedir que uma pessoa seja reconhecida em seu talento para ocultar um possível concorrente ou alguém que possa lhe fazer sombra, agora ou futuramente. É ego.
• Dar uma aula exibindo seus próprios atributos e performances, sem respeitar os limites dos iniciantes ou pessoas em situações de inferioridade por qualquer razão. É ego.
• Ocupar uma roda que tenha muitas pessoas e querer jogar n vezes enquanto muitos não tiveram chance de jogar nenhuma. É ego.
• Se gabar de agressões que cometeu, se auto-elogiar, se gabar de talentos que tenha, ou que ache que tenha. É ego.
• Se colocar sempre em primeiro lugar nas coisas, imaginando-se dotado de privilégios e se achar um ser superior em relação a outras pessoas, independentemente da graduação. É ego.
• Inflamar-se para contar vantagens pessoais e se colocar como um super-dotado em qualquer terreno. É ego.
• Negar a oportunidade a outras pessoas, impondo sua autoridade ou fazendo exigências descabidas. É ego.
• Criticar gratuitamente pessoas tentando fazer com que eles percam o seu prestigio ou o seu brilho perante outras, gratuitamente, ou até por razões justificáveis. É ego.
• Se olhar no espelho e se sentir uma pessoa maior ou melhor que os outros. É ego, além de ser uma estupidez mórbida...
• Tentar aparecer em qualquer momento e em particular nos momentos que existem pessoas ou situações como filmagens fotografias, autoridades, mestres mais antigos, etc.. É ego.

Logicamente que isso poderia ir muito mais longe...! Mas só estou tentando ilustrar as situações em que os egos se manifestam na capoeira.

E o que vemos sobre isso é muito mais na direção do discurso do tipo: temos que nos impor... Capoeira é valente... Ninguém pode segurar um capoeira... Eu sou mais eu... Entre inúmeras outras bobagens, pelo menos para os dias de hoje.

Talvez tudo isso fosse válido como argumento e motivação dos capoeiristas do passado que tinham, eles sim, razões para chutar o balde das regras sociais... Nós, hoje, nas condições que temos a maioria dos grupos, composto na maioria por participantes de classe média...? A esses não caberia esse discurso.

Mas, tem uma coisa mais triste ainda em relação ao dito cujo.

O ego é uma forma de sofrimento. É o sofrimento da insegurança. É a não resolução de conflitos interiores. É o problema que não entendemos como problema. É viver do passado, do que já fomos ou fizemos. É desconhecer a realidade das coisas. É se sentir com necessidade de afirmação o tempo todo, sendo, portanto um estado de espírito onde temos sempre que provar alguma coisa a alguém... É sem dúvida uma dimensão sem brilho da alma humana.

Tudo bem, nada ou ninguém pode mesmo deter esse processo. A não ser que os próprios capoeiristas percebam no que isso está convertendo a prática da capoeira. Se vermos os aspectos negativos dessas posturas, talvez a gente comece a enfrentar ou pelo menos a deixar clara nossa indignação frente a isso.

Os ditos valentes, por exemplo, na maioria das vezes são superegos ensimesmados e exacerbados querendo provar sua superioridade frente a pessoas menos graduadas, fora de forma, inocentes, pacíficas, fisicamente menores, etc... O ego nesse caso é uma receita muito usada para esvaziar a entrada de novatos nos grupos. Depois ainda não sabemos por que a capoeira diminuiu tanto o efetivo de seus participantes.

Em outras palavras, estou afirmando que a capoeira, utilizada pela classe média em particular está produzindo muitos efeitos colaterais negativos em sua prática. Esse efeito em grande parte se caracteriza pela exacerbação do ego no individuo.

É claro que muitos da camada mais baixa também sucumbem a esse mal. Ninguém escapa do vírus do egus patologicus urbanus, para dar um nome pomposo a esse fenômeno. Não dá para esquecer que a explosão da comunicação promovida pela globalização faz chegar a todos os rincões sociais as influências produzidas nos grandes centros. Como diz Caetano Veloso: Bomba de Hidrogênio, luxo para todos! Representando a propagação das piores coisas entre todas as camadas da população.

Assim temos no caso da capoeira, o direito inalienável de qualquer um se tornar um insensível bombado, ou um horrível valente de galera que todo mundo sabe exatamente o que é... Isso é o subproduto do desenvolvimento de uma egoficação em massa, que é o que permite e estimula a propagação da epidemia do ego na capoeira.

A capoeira provavelmente até a metade do século XX se assentava nas camadas mais baixas economicamente da população.

As periferias, subúrbios, áreas de favelas urbanas, entre outros espaços da população menos favorecida da sociedade é que representavam os capoeiristas. Isso logicamente mudou, a classe média foi assumindo a capoeira, inicialmente de modo discreto, mas desde o final da década de cinqüenta houve uma incorporação de uma massa muito grande dessa classe nos movimentos da capoeira.

Facilmente podemos refletir que capoeiristas da classe economicamente mais baixa da sociedade raramente teriam como chegar até o exterior como professores de capoeira. Esse caminho teve que ser aberto por representantes da classe média, obviamente.

Portanto, o discurso que era originalmente legitimo dentro da capoeira, da opressão e da luta de classes, foi sendo apropriado em cadeia, no processo de aculturação da capoeira pela classe média que o reempacotou e devolveu, criando o que o meu amigo Jota Bamberg, o Mestre Angoleiro chama de prateleira da capoeira, difundida através da mídia às massas dos capoeiristas de todos os níveis sociais.

A entrada da classe não-escrava na prática da capoeira é muito bem explorada no trabalho de Letícia Vidor de Sousa Reis, estudo publicado no livro O mundo de pernas para o ar, Ed. Publisher Brasil, ano de 2000, onde a autora demonstra inclusive que a própria legislação que nos parece sempre ser uma forma do governo de combater a capoeira pura e simples, na verdade guardava uma certa dose de controle das ações da polícia, que tinha autoridade para prender e punir os capoeiristas, e depois foi sendo (a polícia) obrigada a produzir um processo de julgamento antes da punição, esvaziando assim uma autoridade que a referida policia tinha, a revelia de qualquer processo penal...

Isso demonstra que a até mesmo os mecanismos sociais de combate ou de controle da capoeira e seus efeitos sociais negativos – conflitos de maltas, roubos e espancamentos de pessoas, ameaças a autoridades, etc., tinham no fundo uma outra faceta, que era justamente a de abrigar e proteger os eventuais representantes não-escravos capoeiristas que fossem presos praticando a proibida arte da capoeira.

Mais tarde, muitos capoeiristas dos guetos de cidades como o Rio de Janeiro ou Salvador (não necessariamente nessa ordem) polemizaram posições politicamente, muitos se incorporando ao próprio banido Partido Comunista (ver o caso do Mestre Onça Tigre, que ensinou Teoria Marxista no PC), esse debate foi estimulado por diversos outros capoeiristas de expressão por volta do final da primeira metade do século XX, conforme muitos capoeiristas como Mestre Decânio, o próprio finado Mestre Onça-Tigre, Mestre Traíra e o próprio Mestre Bimba, que teve muitos alunos da classe média, universitários e outros da alta sociedade.

Mestre Onça-Tigre dizia sempre com uma dose de lirismo por sua veia comunista incorrigível que a capoeira teria sido o primeiro partido político no Brasil...

Sem nossas justificativas politizadas, talvez teríamos que ter uma certa dose de expiação através de nossa consciência ou de valores morais mais profundos, mais humanos, mais crítico-reflexivos, mais corajosos e mais coerentes com nossos limites, até mesmo para estabelecer novos desafios no andar da carruagem do aprendizado da capoeira, para a própria capoeira, como novo marco de seu crescimento teórico, moral ou filosófico, ou simplesmente para que a Capoeira possa se soerguer rumo aos níveis mais elevados do conhecimento humano, alçando talvez o status de um conhecimento profundo e respeitável em todas as camadas das comunidades e até das elites pensantes do planeta.

Mas a capoeira não desenvolveu dentre seus praticantes como lema natural essa ponderação, esse cuidado com os limites do ego. Isso parece antes ser parte das reflexões desnecessárias de pensadores orgânicos da capoeira... Felizmente muitos estão se alinhando a essa proposta, visando ampliar as produções filosóficas na capoeira... Proposta em primeiro plano deste blogg aqui...

Quero deixar claro que todas essas reflexões estão fechadas, sempre, através de uma interrogação.

Resolvidos em nosso problema egóico, poderemos crescer em nossa aceitabilidade e no respeito social para conosco, os capoeiristas, seres extremamente competentes em sua emancipação crítico-reflexiva, cujo limite é produto talvez e exclusivamente da falta de novos horizontes para percorrer ou novas perspectivas para a ascensão de nosso espírito de guerreiros para os umbrais de uma maior competência espiritual...

Mas admito por uma conveniência estratégica e pela produção prévia de um álibi para as minhas reflexões inconclusas que o tema é muito delicado.

É como cortar na própria carne com o requinte de um estripador, a gente ter que remoer coisas como os efeitos negativos da capoeira, ainda que estejam sendo tratados com o firme propósito de elevar os níveis de nossas percepções e nossa relação com a arte da capoeira e o mundo em que nos cerca, tanto o que nos coloca dentro dela, como o mundo em nossa volta, ou como também a volta do mundo, como dissemos quando nos referimos ao andar da capoeira em seu mundo simbólico e físico, no crescimento de sua técnica, de seus conhecimentos, de seus praticantes e defensores, e na sua ocupação de espaços, que já nos surpreende e muito... Mas queremos mais... como disse Toni Vargas em seu trabalho junto com Nestor Capoeira: queremos que a capoeira vá para fora do planeta...!

Também vale recorrer ao Mestre Pastinha, quando ele dizia que o “seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres”, acredito que se referindo ao conjunto das possibilidades que a capoeira abriga, dentro e fora da roda...

Pela complexidade do tema, que já havia iniciado com o meu texto A faca de dois gumes do ego na capoeira, passei muito tempo buscando uma maneira de lidar com isso e não ofender ninguém. Mas infelizmente parece impossível!

Muito difícil é controlar essa onda eterna de egos comandando as coisas!

Mas vamos seguindo...

__________________+++++_______________

(continua...)

3 comentários:

  1. Como vai Mestre,

    Bom, para mim a grande dificuldade é ainda entender o que é o EGO.
    Não por falta de informações ou definições clássicas, e sim identificar onde o ego está presente na minha própria realidade.

    Exemplos e exemplos. Assim está sendo mais fácil.

    Quando nos colocamos em postura de sermos os detentores da razão, do conhecimento e até mesmo de uma superioridade ilusória o ego mostra sua cara.
    Ex.
    "Aquele ali nunca foi em roda de rua alguma, morre de medo";
    "Aquele grupo só tem saroba, os cara não sabem jogar e nem tocar um berimbau";
    "Aquele ali não aguenta um tapa".

    São alguns sintomas e reflexos do "virus". O problema é que este virus parece não ter cura e os sintomas acabam materializando-se fenotipicamente no indivíduo. Porém o grande problema, que eu vejo, não é só a materilização fenotípica no indivíduo e sim a materialização genotípica gerada na própria sociedade que acaba tendo sua estrutura cultural mutada.

    Em mim o ego está presente de várias formas, creio.
    Ex
    Quando faço algum cometário me achando, mesmo que minimamente, detentor de alguma razão.

    Mas olha ai situações mais práticas:

    Estou jogando com alguém que dentro da minha cabeça é inferior a mim. (me achando melhor= ego)
    De repente o camarada entra numa banda em pé e passa o rodo.
    Escuto as pessoas rindo e comentando.
    Minha orelha esquenta como uma brasa.(envergonhar-se da própria inferioridade = ego)
    E eu simplesmente uso a minha superioridade técnica e numa finta obrigo-o a esquivar para aplicar uma bruta tesoura fazendo a cabeça do meu camarada explodir no chão.(vingança=ego)

    É uma viagem não é?

    Outra vez estava conversando sobre isso e um colega falou
    - "o EGO é o EU". Se o indivíduo não conseguir assumir sua identidade, a noção da sua própria existência então ele será um ser aquém da sua própria realidade, tipo estado vegetativo.
    Ou seja, o ego é necessário para as pessoas se sentir vivas e se desenvolver"

    Mas veja bem:
    Que valores estão empregados em minhas ações?
    Até que ponto minhas ações estão coerentes com a saudável* busca pela satisfação interior?

    O engraçado é que o ego parece ser o grande impulsionador do desenvolvimento e ao mesmo tempo o grande responsável pela decadência.
    O seja, o ego estanca, estagna, retroage, atravessa, destoa.

    Eita virus da peste.

    * SAUDÁVEL não pode ser de interpretação própria para não ser vítima do ego.

    ResponderExcluir
  2. certo tamanho de ego é necessario, o que é mal é egoismo, se podemos eles separar..

    ResponderExcluir