Cais do Valongo - Gravura de Rugendas
Do Valongo da Escravidão ao quilombo da expressão...
Mestre Squisito
É um desafio duplo prefaciar essa linda obra da minha querida irmã, Nádima Paiva do Nascimento.
O primeiro desafio é estar à altura desse trabalho, que na verdade é um
poema extraído da alma dessa pessoa sensível e rica de tantas qualidades e
inspirações, sobrevivente de todas as enchentes e estiagens que as estações de
nossa natureza humana lhe ofereceram.
O segundo e talvez mais difícil, é deixar brotar em minhas palavras os ecos
de minha alma balbucia, versos e reversos, sobre aquilo que Nádima, tão
loquazmente tece, enquanto sofre; vive, enquanto vibra; dilacera os limites
onde a voz pode gritar, construindo um manto de luz sobre essa História de
assustar, pela cruel verdade por trás dos mantos e manobras oficiais, ou vibrar
feliz, com a competência de nossos ancestrais que, das tripas, orelhas e rabos,
fizeram a feijoada – a mais importante iguaria de nossa culinária, como também
a transmutação do sofrimento em resistência, forjando música da miséria, da
agonia, além de orquestrar a gênese da própria alma da cidade, o espírito
festivo do Rio de Janeiro, na gênese da cidade maravilhosa, que se fez
maravilha no momento em que assumiu o seu lado preto da matriz africana.
Tem-se que falar na magia das mães de santo, como Dona Ciata, que se
tornou reduto, resistência à arrogância autoritária. Ali se torna laboratório
das grandes expressões, negros que se tornariam os primeiros afrodescendentes a
ocupar a categoria de artistas aceitos. Essa parte da História, agora
conhecida, a qual nossos filhos podem ouvir, como história de ninar, já que
exalta nossa ancestralidade, sempre tão cultuada como vítima, que nesse caso é
autora de sua própria redenção!
Mas isso tudo não teria sentido se não pudéssemos mencionar a Capoeira,
produto de uma revolta implícita, revolução nem tão discreta, tantas vezes explícita,
frente aos desafios da sobrevivência que jaziam nos becos fétidos da grande
cidade, porto maior por onde fluía o pior e o mais cruel mercado de carne
humana da história da humanidade! Tirar dessa realidade uma luta, tem-se que
ser muito forte, muito competente, sob o risco de tombar, diante das baionetas que
ameaçavam a vida sofrida dos africanos e afrodescendentes, que experimentaram o
suplício de viver essa época de nódoa, sofrimento, crueldade, onde almas
sombrias comandavam o horror da escravidão!
Por outro lado, se tentar falar dessa obra através de uma prosa, ficará
triste a contemplação, expiação de meus limites poéticos, mas redimirá em mim
esse, que na verdade sou eu mesmo, contemplando com uma serena emoção esses
versos que Nádima nos brinda, pois o verso talvez não seja apenas uma forma, senão
o espírito da grande aventura chamada vida!
Mas o verso não tem como brotar sem uma alma esmagada... a poesia é extraída
da dor, transliterada em letras organizadas ao acaso de um alfabeto...
Claro que o Valongo é outro plano, outro pano e outro tecido, costurado
com a trama da covardia humana, forjado no maior desafio que a africanidade
enfrentou, antes de ser meio aceita século depois!
Numa visão mais simplista, o Valongo encarna a contradição dos governos
e governantes. Representa nossa impotência e nossa resistência. Representa o
oito e o oitenta! O Valongo ostenta a nossa mais sublime e incoerente alegria.
A pequena África enfrenta com uma alegoria os seus algozes, os que
passeavam impunes nas páginas da história que eles mesmos escrevem!
Transborda em revelação nossa verdadeira História, aquela que ninguém
conta!
O Valongo é o berço de toda cultura que é negada, porque preta, que é
consumida e substituída por um subproduto subtraído da safra dos bambas, por
aquele que sublimou o amargo de tanta miséria, transmutou o Cais, caos da
Pequena África, em Arte digestiva e palatável ao sensível rancor do racismo...
transmutou, na química da feijoada e do angu, seu sofrimento em canção, sua
agonia em oração, em seus pés descalços e calejados plantou a ginga e fez uma
revolução que ecoou pelos quatro cantos da terra. A capoeira ungiu no peito
fraco a espada de Ogum e gritou aos céus que a liberdade não seria mais
barganhada, seria conquistada!
O Valongo é a transfusão do sangue preto para as veias da cidade, que,
mesmo negando, acaba sucumbindo ao mágico, ao místico, ao nagô, a Xangô...!
Depois que a elite incorpora aquela cultura, refreada e filtrada por
regras e condições, mesmo assim Exu salta na frente da folia e assume o
controle da festa, que virou a cidade e da cidade se fez festa.
A memória apagada agora grita. Quer o direito de existir. Quer ser a
voz dos que foram calados de modo tão desumano e cruel.
Então o Valongo vira uma nova página que antes não se contava. Era
importante soterrar todos aqueles pretos novos, jogar camadas de terra e areia
sobre aquelas almas. Mudar as referências e homenagear a imperatriz. Tudo para
apagar os gritos daquela dor, das páginas da vergonha da própria História!
A diáspora se atualiza, briga, brinca e se recria através da ginga da
capoeira, através de seus santos, seus meninos e seus músicos...
A nova África renasce com o tempero do dendê e insufla os estandartes
da nobreza popular, brincando nos temas impostos, tripudiando no rufar dos
tambores na batida nagô as leis repressoras da republica emergente,
representante e representada por uma elite surda, que foca somente no seu
discurso democrático, mas se nega a olhar para o preto africano e
afrodescendente como igual, não vê o outro nele...
Assim, finalizando, nesse Cais desembarca
A tristeza, a tragédia, a desolação, a miséria, o luto, o horror
A mais sombria mensagem da alma humana...
Mas a nossa raça traz, além disso tudo, na sua bagagem também
Uma alma que samba, que ginga, que grita e dá pernada, que ri
Que dilacera as verdades frágeis dos dominadores
E assim faz brilhar no horizonte um novo sol, que transmuta a própria
sombra
Dos seus algozes em luz, transluz, transpõe, transita, transgride,
transmite uma nova era para o coração da cidade...
Acorda os espíritos dos orixás escondidos nos becos da diáspora, para
fazer a revolução do final dos tempos sem verdade...