terça-feira, 27 de abril de 2010

Competições de Capoeira: a busca da afirmação!!




Estamos vivendo novas investidas na tentativa de muitos idealistas de dar sentido às competições de capoeira...!
Os capoeiristas via de regra ainda não entendem isso como uma grande prova de sua competencia, ou memos de grandes méritos no fato de ter vencido ou se classificado bem em uma competição de capoeira.
Esse assunto vem de muito longe.
Desde os primórdios da própria capoeira regional do Mestre Bimba ele já trazia como parte de sua estratégia de afirmação da capoeira como luta, diversos desafios a que o próprio Mestre Bimba se envolveu, tanto quanto seus alunos mais tarde, diante de algum adversário que se sentia confortável para enfrentar o que era algo muito forte e bastante respeitado então, a Capoeira Regional de Mestre Bimba...!!
Diversos desses combates aconteceram em ringues mesmo... na imprensa e em muitos livros, podemos até hoje são encontrar fragmentos dessa fase e de diversos combates a que fizerem jus alguns alunos do Mestre, ou dele próprio.
Portanto, uma das coisas que os capoeirstas modernos devem saber é que as competições SEMPRE fizeram parte da capoeira mais avançada, em termos de técnica e como papel social da capoeira... pois as competições servem para tornar a capoeira um esporte competitivo, tendo como sonho ou meta a de atingir espaços tão nobres quanto uma olimpíada...
Hoje vemos a capoeira presente em combates, através de lutadores, quase sempre jovens atletas, que naturalmente não possuem a cultura tão ampla e tão abrangente quanto dispomos na capoeira. Com isso eles quase sempre treinam tambem outras modalidades para se preparem para enfrentar adversários de outros estilos. Na ápoca de Mestre Bimba e seus alunos isso era diferente, pois a capoeira era, ela mesma, dotada de competência marcial para enfrentar adversários de qualquer outra modalidade.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Caminhos da Capoeira - entrevista a Informação Social - Palmas - TO


Entrevista concedida a Cláudia Santos

Mestre Squisito, para ele a capoeira é um instrumento de inclusão social

Falta a gente saber para onde quer ir com a capoeira


Conhecido como Squisito devido a seu porte alto e magro e fisionomia marcante, o mestre de capoeira Reginaldo da Silveira Costa, 56 anos, também é mestre em Sociologia e especialista em Educação Física e Ciência da Informação. Mineiro, do município de Montes Claros, vive em Brasília há 36 anos e é contrário à violência na capoeira, encarando essa arte através de seus aspectos culturais, históricos e sociológicos. Em entrevista exclusiva à Informação Social, durante o 6° Open Fest Internacional de Capoeira, ocorrido em Palmas – TO, no mês de dezembro, Squisito falou sobre os problemas e desafios enfrentados pela capoeira no Brasil e no Tocantins. Por Cláudia Santos


Informação Social - Fale sobre você e como começou na capoeira.
Squisito - Olha só, eu cheguei em Brasília em 1973 e comecei a andar por Brasília, próximo a um lugar que foi o meu primeiro emprego, que era um jornal, e lá tinha a academia de capoeira do mestre Tabosa. Eu sempre passava ali perto e via aquele movimento. Com esse contato, muito rapidamente eu me interessei pela capoeira. Então eu cheguei naquele ano e, já em agosto de 1974, eu comecei a fazer capoeira com o mestre Tabosa. E, desde então, nunca parei. Com uma semana ganhei o nome de Squisito.

IS – E por que esse apelido?
Squisito - O capoeirista tem características que muitas vezes são meio como a sombra dele. Por exemplo a pessoa ser meio exótica ou muito alta. Eu comecei com 20 anos e já era adulto, muito magro, muito desengonçado. E como pra começar a capoeira todo mundo é um pouco esquisito... E eu era um pouco mais esquisito que a média! Na primeira e segunda semana de treino ele (mestre Tabosa) colocou alguém para treinar comigo e aí disse: Você aí, esquisito! Eu olhei primeiro para conferir se já tinha alguém com essas características. Aí ele falou: É você bem aí mesmo! Nunca discuti isso e, depois de um certo tempo, percebi que isso me dava uma guarida. Podia errar, fazer um monte de bobagem no jogo, e como eu era o esquisito, isso era uma espécie de álibi. Aí foi ótimo! E mais tarde eu percebi que os capoeiristas, de modo geral, que tem maiores dificuldades, que tem mais coisas para superar, são os que se empenham mais, se identificam mais. As pessoas que tem mais dificuldades, de modo geral, abraçam a capoeira de uma maneira mais profunda.

IS – E você superou suas dificuldades através da capoeira?
Squisito - Superei a maioria! Pelos menos aquelas mais conhecidas, pois às vezes você tem sombras no seu psiquismo e nunca irá superar porque você desconhece. Mas aqueles medos, aquelas inseguranças... Um adulto jogando capoeira aos 20 anos, tem uma tendência de ser uma pessoa muito limitada. Então eu, por exemplo, jamais superei necessariamente as limitações, mas passei a conviver bem com elas, a aceitar, a não tentar brigar com as minhas características físicas, já que sou um cara alto. E eu nunca tentei fazer nenhum tipo de “presepada” que dependesse dessa alavanca com as costas, esse salto no escuro... Nunca me meti com esse tipo de coisa. Na verdade eu até tentei, mas tomei uma queda tão feia que desisti rápido! (risos) Vi que isso não era para mim e procurei desenvolver bem outras coisas. Desenvolvi um boa velocidade, elasticidade, uma boa noção de jogo. Depois de algum tempo, eu me incursionei por um outro terreno que, para mim, era uma negação absoluta, que era a musicalidade. Porque a maioria de nós tem essa limitação. E eu sou um grande ouvinte de música. Adoro muitos tipos de música. Mas eu próprio ser o músico, ter a capacidade de me articular com a música? Mas a capoeira acaba te empurrando para isso e aí cheguei a fazer berimbaus para mim mesmo, desenvolvendo mais um talento que era a capacidade de ser um artesão. A capoeira te induz a isso. É uma coisa que não tem limites. Todos os caminhos que você quiser explorar com a capoeira, você pode. Ela sempre vai lhe trazer novos desafios. Em alguns você se dá bem, em outros, nem tanto.

IS – A capoeira é luta, dança, cultura? Quais elementos compõem essa arte?
Squisito - É muito difícil apontar todos eles em um papo informal e despreparado assim. O que posso te dizer é que eu tenho um livro que escrevi chamado Capoeira: o caminho do berimbau, onde eu tento discutir isso que você está perguntando, quais são os potenciais da capoeira. Então a capoeira tem uma musicalidade muito forte, que influencia no ritmo do corpo, na capacidade de dançar, que você pode ter antes de se iniciar na capoeira. E depois de fazer algum tempo de capoeira, provavelmente seu domínio corporal e rítmico provavelmente serão ampliados, assim como sua noção de espaço, de movimento e de equilíbrio. Outro elemento, ainda, da capoeira, é defendido por um estudioso lá de Brasília. Ele andou descobrindo que a capoeira amplia seu plano de visão, que ele chama de visão periférica da capoeira. E a capoeira aumenta suas percepções para um ângulo que praticamente nenhuma outra coisa no mundo faz a pessoa desenvolver. Eu estou conversando com você eu estou vendo as cadeiras lá atrás. Esse é um desenvolvimento que a capoeira te conduz a isso. Porque dentro do jogo, como a capoeira é muito dinâmica... de giro, de círculo, de movimentos... E num espaço restrito, você acaba tendo que aumentar o seu ponto de percepção. Isso é um coisa que nenhum outro esporte consegue alcançar.

IS – Esses são aspectos de influência sobre o corpo?
Squisito – Sim, a capoeira é inteligente do pondo de vista corporal. Ela também consegue alguns mecanismos de alavanca, de equilíbrio, de ritmo que acaba se tornando um instrumento de inteligência corporal. Um professor de Fisiologia do Exercício disse numa palestra sobre a inteligência desse esporte. Disse que a capoeira é uma prática que desenvolve a maior inteligência corporal que ele já viu e analisou. Por causa das possibilidades que um jogo, um treino e um exercício de capoeira te leva, ela vai desenvolver inúmeras possibilidades de você encontrar mecanismos, esquivas, alongamentos, percepções, ritmos, velocidades, explosões. A capoeira acaba proporcionando tudo isso. Ou seja, uma inteligência corporal impressionante. Eu tenho visto isto com os pais e mães com crianças pequenas e que ficam impressionados com o que a capoeira induz os filhos a fazerem. Mas ainda acho que um outro potencial desconhecido e pouquíssimo utilizado da capoeira é o fato dela ser um mecanismo de cidadania. Através do sentimento de pertencimento que ela proporciona, a capoeira é um instrumento de inclusão social que atinge não só pessoas que tenham um problema de risco social, mas para a inclusão de qualquer grupo humano. Até para os europeus, que são cheios da grana e tem dificuldades para se sentirem parte de uma convivência social, a capoeira traz isso para eles. Então por isso que eu digo: é praticamente impossível alguém mapear todas essas coisas.

IS – Existe uma função importante que também existe nessa arte, que é o ambiente histórico cantado nas músicas de capoeira, falando de grandes capoeiristas ou das relações entre senhor e escravo no período colonial.
Squisito - É tradição oral que se chama isso. A tradição oral é um dos fenômenos que a capoeira é detentora, por ser descendente de uma cultura com características afro-brasileiras, principalmente africana, trazendo uma relação tribal, uma tradição oral e ritual. Então a capoeira vem trazendo esses elementos de tempos imemoriais, que estão dentro da cultura da capoeira. Então a tradição oral é a grande forma de reprodução da cultura da capoeira.

IS – Qual a diferença entre a Capoeira Regional e a Capoeira Angola?
Squisito - Você irá encontrar algumas definições. Primeiro a Capoeira Angola está dentro da capoeira regional. O mestre Bimba, que criou a Capoeira Regional, primeiro foi angoleiro. E ele trouxe o uso do berimbau, trouxe muitas músicas que ele ouviu, mudou um pouco o ritmo e a forma de cantar. E a capoeira é uma coisa dialética, como dizia o mestre Onça Tigre. Então ela vai dialogando com as cenas, com as condições, com os momentos da história. Então a Capoeira Regional é um mecanismo de se criar um diálogo com uma época em que, na passagem do período colonial para o período moderno no Brasil, existia uma lacuna. A capoeira não tinha como se tornar uma coisa que se pudesse transitar no meio do consumo do século XX na forma original dela. Ela não tinha um código de organização, não tinha metodologia, não tinha fundamento pedagógico, nem estrutura organizacional dela própria. E o mestre Bimba trouxe isso tudo. Empacotou tudo isso e, na verdade, o mestre Bimba não chamou de Capoeira Regional. Ele criou um negócio chamado de Centro de Cultura Física Regional, como se fosse assim dentro da região da Bahia. Lá ele criou um mecanismo de aprendizado de uma cultura física, que era daquela região. E essa malandragem dele de criar esse nome, mesmo todo mundo sabendo que o que ele ensinava era capoeira, fez com que a regional de Bimba se destacasse. Mais tarde a capoeira angola apropriou um monte de coisas da capoeira regional, apropriou festas de eventos, batizados de capoeira, formatura de capoeira, graduação de capoeira. E a Capoeira Angola seguiu alguns passos da Capoeira Regional até onde interessava, mas a Capoeira Regional tem a capoeira angola dentro de si, não tem como separar.

IS – Ouvi falar que existem cada vez menos iniciantes na capoeira, é verdade? Por que isso estaria acontecendo?
Squisito - A capoeira vive um momento de crise. Ela cresceu muito nas décadas de oitenta e noventa. Ela teve um boom de crescimento e os próprios capoeiristas não souberam administrar essa vantagem. Inclusive eu fiz um estudo e constatei que dos capoeiristas, com os mais variados níveis, o grupo que tem menos gente é o dos sem corda. Ou seja, está existindo uma inversão da pirâmide social da capoeira. E isso é um sintoma absolutamente claro de que a capoeira perdeu a força, perdeu a força social dela.

IS - E no Tocantins?
Squisito – Acredite, o Tocantins não foi diferente dos outros Estados no sentido de crescimento. No final da década de 1980 e início de 1990, chegou o Soldado (capoeirista) aqui e ele fez uma química forte social por aqui. Arrastou centenas de capoeiristas para a capoeira no Estado. E durante a década de 1990, a capoeira no Tocantins cresceu, cresceu, cresceu. Mas a partir da virada do milênio ela começou a entrar em decadência, pela mesma razão que aconteceu em todo o Brasil. No Tocantins, a Terreiro continua, talvez, sendo o grupo mais forte. O único grupo, talvez, que consiga reunir tanta gente num evento. Mas no passado, a gente chegou a fazer batizado aqui com 500 pessoas, coisa que não acontece mais.

IS – Mas qual o motivo dessa decadência na capoeira?
Squisito - Os próprios capoeiristas, via de regra, são em parte responsáveis por isto. Existe um conflito, uma luta de poder que acaba implodindo a capoeira. E existe uma outra coisa também na sociedade que é o chamado modismo: o que tá na moda hoje, pode não estar na moda amanhã. E as pessoas vão muito atrás do que todo mundo está fazendo. Esse é um mal do ser humano de querer estar sempre onde todo mundo está. Por isso vive em cidades apertadas, em ruas cheias de carros. A gente tem os dias da semana onde todo mundo trabalha igual. Podia muito bem um grupo ter feriado na segunda, outro grupo ter descanso na terça, aí você diluía a loucura da organização humana. Mas a gente não consegue! Então é um "boom" da moda que passa e a gente também passou. Esse é um outro lado.

Outro fator que considero é que nos falta um pouco de horizonte. Os grupos, de um modo geral, não sabem bem o que querem. Se você sair andando nessas secretarias do Estado perguntando o que os capoeiristas vieram oferecer e pedir, 99% deles foram lá pedir exatamente a mesma coisa: verba para fazer batizado, para fazer camiseta, para fazer cartazes. Ou seja, falta criatividade, falta horizonte, falta a gente saber para onde quer ir com a capoeira. E aí vou lembrar Sêneca, que lá pelo ano 10 d.C. disse que não existem ventos a favor para o marinheiro que não sabe para onde quer ir. Esse mal, em grande parte, está instalado dentro da capoeira.

IS – E que horizonte seria esse?
Squisito - Eu escrevi uma vez sobre o que chamo de Síndrome da Malta, que existe dentro da capoeira. Ela é mais ou menos o seguinte: o capoeirista tem um sentimento de pertencimento a um grupo, que rejeita o que é estranho. Para o capoeirista, o estranho, que é de outro grupo, vai sempre querer derrotá-lo, demonstrar que é melhor do que ele. E a maioria das vezes, quem coloca esse tipo de “pilha” é o próprio mestre, que alimenta a competição, o medo, o conflito e o isolamento. Esse isolamento impede a união dos capoeiristas para que se busque uma mesma política, um crescimento de todos. A gente unido, definindo o que somos, o que queremos e o que podemos tornaria possível materializarmos possibilidades enquanto arte, enquanto cultura, enquanto jogo, enquanto educação. Eu já tentei propor isso, inclusive como lei federal, que a capoeira se tornasse um conteúdo para a disciplina e não uma disciplina que pega um capoeirista pra dar aula ali no quintal e diz que a capoeira está na escola. A capoeira vai estar na escola o dia que o professor de história chegar, abrir a página e dizer: hoje vamos falar sobre o fenômeno da capoeira na história do Brasil. Sobre como os políticos se apropriaram da capoeira, sobre o que significou a guarda negra no Rio de Janeiro. Sobre como a capoeira participou da guerra do Paraguai ou sobre qual é o papel da capoeira no debate abolicionista. O professor de história poderia ensinar isso e para isso não é necessário um professor de capoeira. E aí você criaria dentro da sociedade brasileira uma consciência sobre a capoeira, para que essa pessoa pudesse ser uma aluno de capoeira, mas com alguma noção do problema, do que se tratava. Porque quando a pessoa chega sem informação nenhuma, em que ele vai acreditar? Na primeira coisa que ele ouvir! E provavelmente essa primeira coisa não será uma informação consolidada.

IS – Alguns problemas apontados por capoeiristas no Tocantins sobre o esporte no Estado é a prática de auto titulação pelos praticantes. Por exemplo, o capoeirista se auto intitula mestre de capoeira, sendo que estaria em um nível inferior, só para conseguir com mais facilidade emprego como professor de capoeira. Seria importante fazer o controle da qualidade dessa capoeira?
Squisito – Só é possível pensar em regulação no momento em que a sociedade se envolver com a capoeira. Porque o envolvimento que a sociedade tem com a capoeira é muito periférico. A pessoa é diretora de uma escola e conhece um capoeirista qualquer, aí ela o convida pra fazer uma apresentação. Então ela leva meia dúzia de pessoas, joga lá e você olha aquilo e acha que o cara sabe tudo de capoeira. Então ela o convida para dar aula em uma escola. Então a sociedade ainda pensa na capoeira como uma coisa que é uma manifestação desorganizada... de uma molecada que se reúne para fazer nada e dali muitas vezes saem alguns que são perigosos. Uma vez cheguei em Fortaleza para falar em uma entrevista ao vivo. A gente estava fazendo um evento em Fortaleza e o tema do evento era “Capoeira contra as drogas e a violência”. Quando a gente entrou na cena do programa, um programa com muita audiência, um espectador queria fazer uma pergunta no ar. Então colocaram o cara no ar falando assim: “Como que vocês querem falar de paz na capoeira se o próprio professor do meu primo quebrou o queixo dele em dois lugares e mandou ele para o hospital? Que paz é essa que vocês querem?!” Essa pergunta foi à queima roupa, no programa ao vivo! Então eu falei que a única coisa a fazer é mudar de professor. Existe opção! Agora se você prefere escolher um cara valentão para ensinar seus filhos, seu primo. É uma escolha sua! Mas eu garanto para você que existe opção. Só depende do seu nível de informação. Se você vai colocar o seu filho para aprender alguma coisa, procure saber com quem ele está aprendendo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Debatendo a capoeira na Escola... ou na educação?


Não pude deixar de me envolver nesse tópico aqui, a questão da capoeira na escola...

Esse tema eu venho trabalhando nele, estudando o assunto, fazendo ou acompanhando alguns projetos, enfim, circulando dentro do tema, desde muitos anos...

O assunto é recorrente, vai e volta, e anda em circulos o tempo todo...!

Sempre que vejo esse debate ele está focado na divisão que existe entre o Mestre/Professor de Capoeira & o professor da educação formal, ou seja os professores de outras disciplinas, já tradicionais nas escolas.

Os debates se dão por conta do que seria privilégio dos Professores detendo condições financeiras melhores que os mestres de capoeira por um lado; ou por outro o fator da capoeira na educação... sim ou não...? Deve o mestre de capoeira fazer parte das disciplinas que são ensinadas na escola? e por que ele precisa de diplomas superiores, se o saber da capoeira fala por si, pois seus aprendizados vão muito além dos cursos superiores universitarios, que duram 4 ou 5 anos quando muito?

Dificil é a gente assumir uma atitude isenta e lógica, encontrar posturas e percepções que sejam validas tanto para a Escola, enquanto uma instituição e para a capoeira, enquanto outra Instituição com regras, ética, critérios, etc., tão densos ou justos e consagrados como aqueles da escola...

Será que podemos, com total legitimidade entrar nesse diálogo?

Tive o privilégio de debater esse assunto diretamente dentro de um curso superior, em nível de pós-graduação, realizado na Universidade de Brasilia, quando recebi o título de Pós-Graduação Latu-Sensu em Educação Física, com Especialização em Capoeira na Escola, exatamente o tema aqui debatido, se não me falha a compreensão.

Grande coisa, muitos de nós poderão me dizer... e terei que aceitar... pois os meus 36 anos envolvidos com a capoeira, me ensinaram muito mais do que os dois anos que entrei nesse curso e dialoguei com professores universitários da área de educação fisica, a maioria deles com mestrado e doutorado academicos.

A questão, camaradas, se me permitem tentar mostrar uma outra visão ainda fora do contexto em que os debatedores aqui se postam, que é a coisa pragmática, o dia-dia desse entendimento, os projetos acontecendo, as diferenças de salários, os critérios, as questões e as posturas obviamente distintas, entre os mestres/professores de capoeira e um silêncio sepulcral do lado oficial da Educação...!!

Cadê uma manifestação do Ministério da Educação sobre isso??

Quem se envolveu com a capoeira até agora, pelo menos no Governo Lula - que foi com absoluta clareza o que mais deu espaço para a capoeira dentro do Governo Federal até hoje -, foram os ministérios do Esporte, da Cultura e órgãos como a Fundação Palmares e o IPHAN ambos do Ministério da Cultura...

Ou seja, o problema vem de uma raíz distante que ninguém discute! Qual é a posição do Ministério da Educação em relação à capoeira...??

O que acontece na realidade das escolas é óbvio para todos nós: praticamente TODAS as escolas deste País (e mundo afora não é diferente) possui algum projeto de capoeira... Sendo que a maioria deles tem a capoeira como atvidade Extra-Classe ou seja, não faz parte da Educação!

Está fora das salas de aula!...

Não podemos mais nos confundir quanto isso, pela amor de Deus!

Ou entramos nas salas de aula, junto com a matemática, a geografia, o português, etc., e temos lá uma disciplina chamada Capoeira, ou vamos sim continuar ocupando os pátios, ginásios, salas em horários vazios, etc., com aulas e eventos de capoeira, sendo que essa segunda coisa não tem diferença nenhuma da capoeira que ensinamos em nossas academias, projetos, espaços, quadras, condomínios, associações diversas, clubes, seja lá qual for o tipo de espaço! Nós inclusive dizemos isso: ah, consegui um espaço para dar aulas na escola da minha cidade!

Gente, esse divisor de águas tem que se universalizar...! temos que discutir essas duas coisas como coisas diferentes... não tem jeito!!

Ninguém gostaria que seu filho tivesse aula de capoeira com alguns tipos de correntes filosóficas que existem hoje (e sempre existiram) na capoeira...! Algum mestre de capoeira não faria questão de saber quem é o professor de capoeira de seu filho na escola?? Será que eles (nós) damos a mesma abordagem quando se trata de matemática, biologia, ou qualquer outra matéria? Saber quem são os professores dessas matérias, de onde se formaram, qual foi a escola deles, etc... Claro que não damos!

A gente ia querer que nossos filhos tivessem aulas de capoeira na escola - na sala de aula, diga-se - por alguém que fosse devidamente habilitado, submetido a critérios morais, que fosse muito bem fundamentado em seus ensinamentos, que nunca tivesse se envolvido em brigas, conflites de grupos, que nunca tivesse assediado as mulheres dentro de suas aulas, etc...

Por que então a gente quando discute esse assunto, trata da escola apenas como um espaço a mais, tal qual uma academia, clube, associação, etc....? é a mesma coisa? claro que não!

A capoeira quando vier a fazer parte do portfólio de disciplinas das escolas de educação formal, terá sim que estar devidamente preparada para isso!!

Qualquer um de nós, mestres, professores, graduados em capoeira, sabe fazer essa exigência...

Por que não conseguimos ver esse divisor de água e nos posicionamos por ele? Porque a maioria das vezes que estamos discutindo esse assunto a gente esta fazendo isso como parte de um conjunto de interesses que temos! Simples.

Ah e qual será a maneira adequada então de debater ou de definir essa questão?

A gente tem que ser antes de mais nada honestos com nossa própria limitação e nossas expectativas pessoais... vamos assumir que temos sempre ao lado de nossas posições assumidas os interesses pessoais também...!

Se a gente fizer isso, vamos começar a distinguir que estou aqui debatendo porque quero subsídios, projetos, conhecimentos, apoios, politicas públicas, etc., para um certo tipo de projeto que eu estou pleiteando, trabalhando ou defendendo.

Mas quando se tratar da educação formal, por exemplo, aí talvez seja melhor a gente debater isso primeiramente junto ao Ministério da Educação... vamos abrir um espaço de aproximação com esse Minístério e vamos levar para esse fórum as pessoas que estejam preparadas para esse debate, diferentemente daquelas que apenas querem o espaço da escola para dar suas aulas de capoeira, seguindo seus fundamentos, sua escola tradicional, seu grupo, seu mestre, sua filosofia de capoeira, sua linhagem, etc... são assuntos diferentes...

Mas, não adianta negar, nós somos sempre partidários de coisas e soluções que nos interesse e muito raramente pensamos na capoeira como algo verdadeiramente maior do que nossos proprios limites e interesses...

Se a gente pensasse assim, de forma isenta e assumisse nossa postura de defensores da capoeira independemente de nossos proprios interesses, a gente não estaria desenvolvendo ao mesmo tempo infinitos projetos e espaços de debates isolados, quase sempre montados e articulados para atender o nosso grupo, seja qual for o sentido que grupo tenha aqui...

Assisti a n momentos em que nós capoeiristas nos reunimos para discutir soluções para a Capoeira e as decisões inevitavelmente atendem ao grupo que está debatendo... quem quiser que monte o seu debate... a gente diz. Ou pensa.

Minha conclusão é de que a capoeira para se tornar um assunto educacional para todas as escolas, todos os níveis, todas as idades, em todos os recantos desse país é que ela talvez possa ser sim beneficiada com a Lei 10.639, tal e qual qualquer outra cultura de origem afro-descendente desde que ela seja tratada como Conteúdo na educação formal, alimentando assim o saber de nosso povo em geral (e não os espaços ocupados por grupos), dando oportunidade a quem produz esses conhecimentos, aí sim todos os que vivem ou professam a capoeira e podem ensina-la no todo ou por partes, incrementando, obviamente as escolas de capoeira com novos alunos, pois a escola ensina música, mas quem vende discos são as lojas de disco, e quem os prepara são os cantores, produtores, arranjadores, gráficas, músicos, fabricantes de instrumentos, enfim, uma rede enorme de pessoas se beneficiam do fato de que a música seja ensinada nas escolas enquanto teoria...

Por que não podemos ter essa mesma visão para a capoeira?

A pessoa que der por exemplo, aula de geometria (já houve esse caso!) pode se utilizar da capoeira para ensinar com seus movimentos como se constrói um arco (berimbau) um círculo (a roda) um compasso (meia-lua de compasso) etc.. O responsável pela Geografia, poderia ensinar que a capoeira fez parte do movimento quilombola no Brasil e que se espalhou pelos quilombos, nas regiões A, B e C... com os mais fortes sendo os que se instalaram na região de Palmares, por exemplo... A capoeira teve um fluxo de expansão seguindo dos Estados da Bahia, Rio e Recife em direção a... é um tema geográfico... pode ser discutido como parte da Geografia...! e quem vai dar esses informes esses conhecimentos?

Acredito que quem está mais em condições de faze-lo sejam os mestres de capoeira, pesquisadores que se orientaram pela capoeira para produzir seus estudos e projetos de pesquisa...

Praticamente todas as disciplinas que são dadas nas escolas podem ser enriquecidas com a Capoeira como parte de seus conteúdos e isso alimentará o saber sobre a capoeira e as escolas de capoeira, pois haverá muito mais pessoas querendo buscar a prática da capoeira, essa sim, nós somos os detentores e não podemos abrir mão pra ninguém de nenhuma outra corrente de conhecimento, professores de educação, de cultura popular, de folclores, seja lá do que for, tem que se contentar em obter com os capoeiristas o saber que irão repassar... e nós continuarems a ser o representantes reais e legais dessa arte da qual nos orgulhamos tanto.

Outras disciplinas podem também ter conteúdos extraídos e aprendidos com os capoeiras, entre elas a Sociologia, a Antropologia, a Arte, a Música, a História, a Economia, a Filosofia, e até arquitetura já vi produções fantasticas incluindo capoeira, a cultura africana, enfim, uma infinidade de conhecimentos que temos podem ser uteis para a educação, e qualquer um de nós que esteja habilitado a ser um professor de dentro da sala de aula, vai ser com certeza um Mestre que vai dar muita lição na Educação...!!

Enquanto isso, vamos aumentar nossos conhecimentos, nossa produção, incentivar nossos discipulos a estudarem, a buscarem suas formações, vamos incentivar nossa juventude capoeirista a ler, a produzir com a mente, mais do que com as pernas e em breve nós seremos um batalhão de capoeiristas corpo-e-mente...! Invencíveis...! principalmente na guerra pela sobrevivência nesse mundo cruelmente dividido entre os que sabem e os quem tem o diploma, que não é e nunca foi justo... Mas quem disse que o mundo é ou já foi algum dia justo??








A Faca de dois gumes do ego na Capoeira

"A capoeira é tudo que a boca come".


Mestre Pastinha



Há muitos e muitos anos ouço falar de um tal de Ego...
Ele está presente constantemente em quaisquer debates envolvendo a filosofia oriental - que me perdoem os filósofos sérios, pois sei que se for mencionada a palavra "filosofia" já se refere à grega...
Sempre engoli a seco essa palavra, pela importância que a ela é dada em tantas abordagens, em tantos pontos de vistas, em tantas disciplinas, que me pareceu sempre um exagero a importancia que se dá a ele, o Ego.
Só para ilustrar o que digo, entrei com a palvra "ego" no google.com agorinha e me vieram mais de 63 milhões de ocorrências!!
É muito mesmo grande o alcance e os dedobramentos que o tal ego assume perante a comunidade em geral e aos estudiosos da ética e do espírito humano em particular.
Para tentar reduzir um pouco esse tema, na busca no google, mesmo porque não estamos interessados apenas no uso da palavra no meio de quaisquer abordagem, mas sobretudo o ego enquanto um fenomeno relacionado com a reflexão sobre o caráter humano, ai a incidência baixou bastante, caindo para algo em torno de 2.8 milhões de ocorrencia, quando associado com a palavra "filosofia".
Já ajuda, mas, convenhamos é muita coisa pra se entender... muito mais do que humanamente é possível...
Afinal, o que nos interessa aqui é o ego enquanto uma reflexão dentro da capoeira...
A associação ego & capoeira reduz esse universo para menos de 300 mil ocorrencias.
Mas ainda é muito, com toda clareza!
A questão é: o que estamos buscando? Por que interessa saber o que está no google em relação a isso...
Explico então: estamos buscando saber se esse assunto é objeto de alguma produção especifica dentro da capoeira e a resposta é simples e direta: não. Não temos isso.
Como tantas outras carências, a capoeira carece de uma reflexão suficientemente convincente que analise as dimensões do ego em sua prática e, acreditem, é impressionamente grande a presença de fragmentos egóicos dentro da capoeira...!
Fascinante pelo lado da riqueza das manifestões que temos de nossas visões egoísticas e egocêntricas, além de egóico latu sensu, a capoeira vive de buscar a fixação de cada no curso histórico da vida de nossa arte!
Delirantemente atraente a idéia de inscrever seu nome - ou apelido - na história da nossa arte, o capoeira se leva por um mar de possibilidade que a capoeira abriga e se atira de sapatos na correnteza dessas possibilidades...!!
Já tenho visto coisas incríveis que fazemos (me incluo no meio desses atores por uma questão de coerência...), as sutilezas envolvidas nas nossas tramas sub-conscientes ou conscientes para firmar o nosso nome no panteão dos grandes capoeiras da História.
É muito comum os mais ou menos novatos no terreno da produção da capoeira se encherem de razão para tentar discutir as questões e as soluções para a capoeira.
Todos pensamos e queremos ser construtores de saidas para a Capoeira, o que é uma coisa maravilhosa de nossa arte, e vemos sempre o capoeirista abrindo os botões de suas camisas onde está escrito em letras sempre elegantes: super-capoeira!
A maioria age segundo seu subconsciente...!
Mas está aí! O nosso ego é um desafio para nós, ou como já diziam os grandes mestres orientais do Taoismo, do Budismo, é o nosso poderoso e mais importante inimigo inicialmente. Mesmo porque na maioria das vezes sequer sabemos que o estamos enfrentando... só muito mais tarde percebemos que agimos tantas vezes sob essa ótica, sob essa influência, sob essa orientação...!
Observem que não existe uma critica dura a respeito disso...! O que faço são reflexões ao sabor da gratuidade de meus insights de capoeirista, para tentar contribuir (na minha pretensão naturalmente egóica também... rs) com o seu crescimento e com a maior compreensão dos fenômenos psíquico-sociais que trazemos dentro dessa arte magnifíca que tanto tem contribuido para tantos de nós se desenvolverm nas suas competencias humanas, artisticas, crítico-reflexiva e auto-emancipadora, como se denominam as artes marciais orientais, o caminho...!
Mas por que isso tem dois gumes...?
Porque em primeiro lugar é um mal necessário - se puder ser considerado um mal... Pois no início do aprendizado da capoeira temos que romper com nossas inseguras, nossas incertezas, nossas limitações, nossos medos... Ai temos que alimentar dentro de nós uma coragem nova, uma forma de enfrentar as coisas sem maiores medos... precisamos aumentar nossa auto-estima e superar nossos limites. Isso representa a liberação de algum modo de nosso Ego, até então uma visão simplista de auto-superação...
E depois, quando já obtivemos coragem suficiente, auto-estima suficiente, crescimento suficiente, auto-controle suficiente, entra em cena um fenômeno tão perigoso como a serpente do paraíso: o poder e a competição que existe por ele!
A partir daí nossa verdadeira opção consciente se torna irrelevante e nosso subconsciente nos empurra para a fotografia ao lado do Rei, seja lá quem for o rei imaginário... um mestre famoso... o nosso próprio mestre... uma imagem para ir pra televisão... uma foto fazendo firula, acrobacia ou pose de forte dando um super chute... essas possibilidades são infinitas e muito pouco provavel que alguem as enumere todas. A intenção aqui é apenas ilustrar o assunto e a atitude que começamos a tomar.
Mas não tem limite esse fenômeno e essa vontade de seguir o curso do nosso crescimento... A ambição é um motor poderoso para o crescimento pessoal... A capoeira fomenta e alimenta esse processo... o tempo todo!
Neste ponto alguem pode questionar: mas e aí, não temos que crescer? e do auto de minha ignorância assumida respondo: sim... invariavelmente o ser humano quer e até precisa crescer, senão ele será sempre um ser vivendo em seus instintos animais, tão precário quanto qualquer outro bicho!
Mas isso seria muito melhor se não representasse a nossa perigosa sombra das vontades de nosso EGO, esse inimigo sutil e manipulador de nossas atitudes.
Mas vamos continuar mais esse tema depois...
Essa é apenas uma introdução.
Me desculpem se deixei uma expectativa não correspondida de concluir o tema, mas acreditem, há tanto desse assunto que poderia encher muitos livros, por isso vamos com calma...
Yêh, volta do mundo, camará!!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O filho de Xangô, Mestre Tabosa, lança seu livro


Agora muito mais pessoas poderão conhecer esse fenômeno chamado Helio Tabosa de Moraes, mais conhecido como Mestre Tabosa...

Eis que o Mestre resolveu nos brindar com seu livro que, aliás, tal qual o autor, é cheio de surpresas e de uma diversidade enorme de assuntos e de informações, que com certeza preenchem uma triste lacuna que tínhamos, quanto ao registro da vida e obra deste ícone da capoeira e da História do Distrito Federal, seja pela perspectiva da capoeira, da arte em geral e de tudo que diga respeito à identidade que essa cidade já produziu.

Mestre Tabosa representa essa fascinante cultura que Brasilia hoje consagra, que abrange muito mais do que grandes ídolos globalizados em novelas ou no teatro, mas que fixa sua marca no terreno da produção cotidiana, face a face com as pessoas, cidadãos aparentemente comuns e ao mesmo tempo ídolos inquestionáveis de toda uma geração pioneira, fundadora das bases da nossa urbus brasiliensis, que a cada dia deixa menos dúvida sobre a sua maioridade histórica, cultural e identitária.

Mestre Tabosa é uma dessas pessoas raras que a cada século nascem muito poucas! Suas habilidades de capoeirista já viraram lendas da cidade e da capoeira para todos os que tiveram o privilégio de ve-lo em suas performances capoeiristicas...

Dotado de muitas competências distintas, Hélio Tabosa é polivalente de uma maneira muito ampla no que diz respeito aos seus conhecimentos e produções na capoeira.

Foi ele sem dúvida através da Academia Tabosa que promoveu a estação primeira da capoeira em nossa cidade, tornando-se rapidamente o elo de ligação com todo o cosmo capoeirístico mundo afora...

Em 1993, numa viagem a Portugal, adquiri um CD de músicas de Capoeira gravado nos Estados Unidos da America, onde uma música percorriu os diversos Estados do Brasil, mencionando dentro da sua letra os mestres consegrados de cada um desses locais.

Ouvindo bem a letra, na época muito raros os CDs de capoeira, vi que o autor da música, Mestre Deraldo, que vivia na cidade de Boston, Machachussets (tomara que o nome seja assim!), quando diz "axé Brasília, Mestre Tabosa!" me reporta a uma pergunta que tempos depois fiz ao Mestre, levando pra ele uma copia em fita K7 (coisa antiga já, né??!), pois naquele tempo era muito caro fazer-se uma copia de CD: voce conhece esse Mestre aqui, Tabosa? Conheço não!, respondeu o Mestre...

Nesse tempo, Tabosa já estava dividido entre muitos outros assuntos na sua relação com o esporte em sua academia e em diversas outras coisas que fazia. Mas seu nome já havia se consagrado como capoeirista e como mestre de capoeira, nome de Brasilia nos quatro cantos do mundo e da capoeira que por esses cantos se espalhava com a força de um vendaval, ao som dos berimbaus de capoeiristas de diversos Estados brasileiros, em particular Bahia, naturalmente; Rio de Janeiro; São Paulo e de alguns outros lugares em menor escala...

O Mestre Deraldo, por exemplo, é de uma linhagem de capoeira de Santos, do Mestre Sombra de Santos, fundador do Grupo Senzala de Santos, que já havia iniciado o trabalho no exterior através de diversos alunos seus. E ali já se achava o nome do Mestre Tabosa...

O tempo passou. Sempre acontece isso... Mas nada mudou em relação ao nome e a representatividade que Hélio Tabosa traz em sua marca registrada e em sua História de vida. E isso se confunde sempre com a história de Brasilia e da capoeira em geral!

Falar por onde começou a acontecer capoeira em Brasilia, onde tantas coisas se deram, como aulas em salas de escolas publicas; mulheres e homens em turmas mistas fazendo capoeira; treinamento localizado dentro da aula de capoeira, movimentos lindissimos de uma capoeira pura e leve como o vento, tudo isso teve nomes de Brasilia associado e o sobrenome Tabosa estava junto!!

O mais importante evento do início da segunda metade do século XX aconteceu no Rio de Janeiro, o Festival Berimbau de Ouro de Capoeira, surge ali o conceito que se expandiu por todos os rumos por onde andou os ventos da transformação da capoeira em grupos... os grupos assumiram a capoeira. Até então tinha outros nomes, as escolas, os mestres, as linhagens, as divisões de angola e regional, etc., mas o conceito de "grupo" surge ali, com o Grupo Senzala e com ele a inclusão de nomes de Brasilia dentro desse contexto!

Brasilia ganhou a mesma notoriedade que o grupo ganhador do Berimbau de Ouro (na verdade os tres anos que tiveram o concurso). Mas não participou apenas como convidados. Foram decisivas as participações de nossos capoeiristas ali: Tabosa, Cláudio Danadinho, Fritz e Adilson, não eram apenas convidados. Fizeram diferença! Criaram um bloco concorrendo junto com o Grupo Senzala que tornou-se grande parceiro e isso trouxe uma verdadeira revolução para a capoeira desde então.

Parte dessa (r)evolução Brasília desprezou e particularmente o Mestre Tabosa sempre foi contra, que foi a "filiação" de grupos e pessoas de outros lugares ao grupo-matriz, criando assim uma verdadeira indústria dentro da capoeira e expandindo-se em verdadeiras instituições globalizadas em muitos paises, sob a grife daquele grupo ou daquele mestre.

Mestre Tabosa abraçou um fundamento legado pelo seu próprio Mestre, o Mestre Arraia, que era o ensinamento direto, olho no olho, ginga com ginga, como forma de ensinar a capoeira. Ele passou então a ser um combativo crítico das patologias que se seguiram dentro e fora das rodas de capoeira, a violência em primeiro plano e em menor impacto a perda de identidade, o desprezo por tradições fundamentais, particularmente o jogo sem jogo, onde a distancia foi aumentando entre os capoeiristas, deixando a capoeira de ser um diálogo para ser um monólogo simultâneo de dois jogadores. A violência passa a substituir a eficiência, em que Tabosa sempre foi um Mestre!

Aí ele se torna um expectador. Um crítico na roda maior da capoeira, que é a própria vida de todos os seus pares, fora das rodas de jogo, mas inexpugnavelmente dentro das verdadeiras rodas de capoeira de Brasilia. Um observador atento e um Conselheiro para quem o procurasse, sempre equilibrado e sempre demonstrando que a sua Mestria não era de pernas somente, braços e golpes, era e sempre será de um grande líder,que agrega, coordena, une, pondera, e tem sempre propostas sensatas e novas alternativas onde as crises se instalam...

Tabosa se torna referência em outras modalidades de esporte, como no triatlon, na localizada e em outras formas de produção artística e cultural, como no cinema, na música, nas iniciativas governamentais como braço forte e sempre conciliador entre todas as forças e interesses, dentro de um ambiente quase sempre envoltos em nuvens de discórdias, de competição, de jogos sutis ou declarados pela obtenção de destaques ou de privilégios... Tabosa sempre foi um justo e imparcial juiz diante dos conflitos que sempre existiram e sempre existirão na capoeira, enquanto ela for praticada por seres humanos normais, como todos nós!

No seu livro, que é o grande mote deste nosso blogspot, ele além de contar diversas Histórias e estórias acerca da capoeira no DF e em eventos Brasil afora, ele incursiona na História da Afracanidade e da escravidão e mais uma vez é um Mestre que dá lição!

Depoimentos emocionados o exaltam e o consagram.

Fotos que marcaram época na História da capoeira vem de quebra no livro, que se torna assim uma quase enciclopédica epopéia capoeiristica, que ninguém envolvido com a capoeira ou interessando na cultura em geral pode deixar de ter.

Mestre Tabosa É Brasilia. Brasília É Mestre Tabosa...

Ah, e uma ultima coisa, antes de apresentar alguns de seus marcos históricos, não posso deixar de dizer e de registrar, por interesse próprio, que me perdoem os que consideram isso uma atitude interesseira ou não isenta minha: Hélio Tabosa, o Mestre Tabosa, é e sempre será o meu Mestre na Capoeira!



Saiba um pouco sobre o Mestre Tabosa

Hélio Tabosade Moraes, advogado, mais conhecido como Mestre Tabosa, iniciou sua vida profissional como bancário, mas abandonou para ser autônomo,
seguindo sua profissão de talento e coração, a educação.

Estudou várias artes marciais como judô, sumô e esgrima .
Formou os melhores mestres de capoeira e os melhores professores de ginástica de Brasília.
Sua trajetória abrangeu também a ginástica estética que ele chama de “ginástica localizada brasileira” um diferencial na área esportiva, notoriamente conhecida em Brasília.

Em 1964 ingressou na capoeira.
Em 1965 implantou a capoeira na UnB. Em 1967, 1968 e 1969 recebeu, junto com o Grupo Senzala - RJ, o Berimbau de Ouro, a maior honraria de um mestre de capoeira, até hoje talvez não superado ainda.

capoeira; participou como técnico no “Campeonato Brasileiro” realizado em São Paulo.

Em 1978 apresentou aula sobre a capoeira na Escola Aliança Francesa.
Em 1981 recebeu a faixa preta do 1º DAN, de judô.

Em 1983 completou em 10º lugar o “I Triátlon” no Rio de Janeiro; participou da “Meia-Maratona” Bradesco/Correio Braziliense/GDF-DF-DEFER e mais duas “Maratonas” no Rio de Janeiro.

Em 1984 participou do curso do “Ginástica Estética de Academia” do Governo do Distrito Federal, Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação.

Em 1987 participou do “Short Triátlon Brasiliense”. A partir de 1988, coordenou várias edições dos JEB (Jogos Escolares Brasileiros) na área da capoeira.

Em 1990 coordenou o 1º Projeto “Jogos Abertos de Brasília de Capoeira”. Atuou como técnico dos primeiros campeonatos da Confederação Brasileira e proferiu palestras sobre a capoeira; aplicou vivência de capoeira na Fundação Cidade da Paz; participou do “Encontro Mundial do Meio Ambiente e os 500 Anos do Descobrimento da América”.

Em 1991 foi jurado no “II Jogos Abertos” do DF; formou a 1ª Mestre de Capoeira mulher.

Em 1992 participou de diversos simpósios de capoeira; colaborou nas “Diretrizes da Capoeira no Brasil”; representou o Brasil no “Encontro Mundial de Artes Marciais”
na Alemanha; foi palestrante do “GEISPORT”; apresentou, de sua autoria, o regulamento que regeu os JEB de capoeira, “Roda de Capoeira Competitiva”;
proferiu palestra para professores do “Programa Escola Comunidade de Ginástica nas Quadras”; manifestou-se pelo resgate da capoeira.

Em 1993 declarou-se contra o clímax da brutalidade entre gangues de Brasília; participou da “Jornada Contra a Violência”,
convidado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal; apresentou uma aula sobre a capoeira na “Faculdade de Artes Dulcina de Moraes”.

Em 1997 recebeu, da “Federação de Capoeira do Distrito Federal”, o diploma de honra ao mérito de “Pioneiro na Divulgação da Capoeira no Distrito Federal”.

Em 1996 participou da gravação do CD “Tantas Canções” de Muriel Tabb e Paulo André Tavares;

em 1997 participou do filme “O sonho não acabou” com Lucélia Santos e contracenou com Miguel Falabela e do filme “No Coração dos Deuses” da Aquarela Produções Culturais - um filme de Geraldo Moraes - roteiro longa-metragem sobre a saga dos Bandeirantes. Participou do 114º Aniversário do Sonho-Visão de Dom Bosco com a peça “Brasília Paralelo 15”;

em 2002, Tabosa gravou canções de sua autoria no CD da cantora Muriel Tabb, intitulado “Olhos d´água”.

Hélio Tabosa dividiu o palco com Muriel Tabb e Tico de Moraes, mais de uma vez, na Sala Cássia Eller - FUNARTE, nas salas Villa Lobos e Martins Penna, do Teatro Nacional, na Biblioteca Demonstrativa de Brasília e na Livraria Cultura.

E no apagar das luzes de 2009, somos surpreendidos com essa matéria:

MESTRE TABOSA

Voto de Aplauso foi requerido também, pelo senador Arthur Virgílio, para Hélio Tabosa de Moraes, pela publicação do livro O Filho de Xangô, a respeito da história e prática da capoeira no Brasil.

"Mestre Tabosa, como é conhecido – disse o senador – é figura das mais representativas na área da capoeira. Estudou várias artes marciais, como judô, sumô e esgrima e formou os melhores mestres de capoeira e os melhores professores de ginástica de Brasília. Foi também o responsável pela implantação do ensino da capoeira na Universidade de Brasília (UnB)."

É somente um pouco a respeito de Mestre Tabosa.

Para saber mais, leia o livro...!!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A capoeira de volta ao seu começo: Africa, Angola!

É impressionante a felicidade e o grande envolvimento de um enorme grupo de seguidores em Angola, que estão fazendo capoeira, vivendo uma alegria contagiante por isso. Deu até saudade dos anos 80 no Brasil, quando a capoeira ganhou dimensões de popularidade nunca antes registrada!
A foto é em Lobito, Provincia de Benguela, onde um evento de capoeira reune algo em torno de cem capoeiristas, entre iniciantes, iniciados e alguns graduados de Luanda e do Brasil.
É festa!
A criançada se agita com a chegada da turma que vem de Luanda e que estava sendo esperada com toda emoção!
O público prestigia com muita generosidade e se envolve sorridente com o teatro feito por artistas da região: representam a capoeira como uma forma de resgate da auto-estima e de jovens sob ameaça de risco social, tais como envolvimento com drogas e culturas alienígenas, numa linguagem super envolvente para o público, que nem reclama dos quase 40 minutos que dura a encenação, envolvendo até mesmo o nome do professor de capoeira responsável pelo evento em Lobito, o Instrutor Xangô...
A platéia acompanha rindo muito, até a entrada de dançarinos que apresentam danças tradicionais de Angola, com certeza algo familiar aos capoeiristas no Brasil, mesmo que seja muito dificil identificar de que maneira ou qual a alquimia foi usada para produzir a capoeira, tal como a conhecemos desde sempre...
Em Luanda não foi diferente... Em Lubango, ano passado, tampouco!
Parece uma febre que assola o país, irmanado pela lingua portuguesa, Angola tem suas prioridades e decola em seu desenvolvimento com o pé fundo no acelerador do progresso...
Nas ruas, praças, paradas dos ônibus, onde for, o angola é um cidadão hiper-ativo! Parece não ser possível encontrar alguem relaxado e curtindo simplesmente um bom papo...!
O país tem pressa em recuperar sua economia e sua cidadania, depois de décadas de uma guerra perversa que deixou marcas de sofrimento em sua população, além de uma desconhecida quantidade de minas explosivas, resquício dificil de ser apagado desse periodo de perigo e destruição de tantas vidas!
Hoje a capoeira está no cenário de recuperação do País!
Os capoeiristas escrevem sua vida agora apoiados numa modalidade que vai muito além de uma luta, ou um esporte, ou uma cultura desconhecida... A capoeira é parte de um processo de recuperação da dignidade do angolano, mormente o jovem, que agora - muitos deles - ostentam orgulhosos a sua camiseta de seu grupo de capoeira com muita honra!
Convivem em volta do berimbau e cantam afinadíssimos as canções e os cânticos da capoeira, os quais no Brasil parecem se reportar aos ancestrais imemoriais vindos da Africa, mas no continente negro parecem ser algo vivo e identificado com tudo o que é mais atual na cultura pulsante e vibrante da modernidade deste país tão simpático, tão cheio de vida e de alegria, tão alto astral, fazendo a nós, os brasileiros que ali vamos, nos sentirmos tão equivocados, quando pensamos que nossos problemas sejam relevantes, quando comparamos a batalha cruel a que nossos irmãos angolanos vivem, sem perder sua alegria, de cabeça erguida, com o olhar no futuro, com toda confiança em Deus!
E para nossa maior identidade e felicidade, trazem sempre um berimbau nas mãos!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um novo dia para lembrar Onça Tigre!!!


Hoje, dia 16 de novembro de 2009, uma segunda-feira qualquer, sem nenhuma importância sensacional, nenhuma data nacional, um dia banal, igual a tantos outros, a não ser pelo fato de que ao falar do filme de Besouro me lembrei de Onça-Tigre, outro herói anônimo de nossos guerreiros-capoeira, que cresceu e desapareceu no limbo de nossa mitologia não realizada, não consumida plenamente pela absoluta falta de espaço ou de um mural, onde possam ser expostos os nossos grandes guerreiros...!
Onça Tigre, para quem o conheceu se tornou e sempre será lembrado como um desses grandes heróis nacionais, ainda desconhecido da maioria, principalmente porque tinha em sua trajetória dois grandes limitadores para que pudesse ser devidamente reconhecido:
O primeiro era porque viveu muito e contou ele próprio sua História pessoal, para tantos quanto tiveram esse privilégio, demonstrando muitas vezes como foi que fez os movimentos, os ataques ou as defesas que se tornaram para nós célebres! Ora, um herói que conta ele mesmo suas estórias, se torna muito incipiente enquanto fato...! Ninguém gosta muito de ouvir alguem contando estórias como quem contasse vantagem e Onça Tigre parecia isso, parecia - aos incautos - alguém que contasse vantagem! Isso foi um dos pecados que ele cometeu e que tornou de importância menor as suas façanhas...
A segunda e importante razão para que ele se tornasse alguém desconhecido, era porque ele, tendo sido braço direito do Mestre Bimba na construção das técnicas da capoeira regional, não era baiano, nem era negro de pele...! Aí se tornou muito dificil para ele ser reconhecido por aqueles historiadores, ou mesmo dos contrutores das fábulos incríveis que povoam o universo simbólico e heróico da capoeira...
Esses dois "defeitos" fizeram com que o Mestre Onça Tigre, cujo nome dado pelo próprio Mestre Bimba, significa a sagacidade da Onça na força de um tigre, dando uma primeira idéia - a quem não teve a felicidade de com ele conviver e ouvir suas estórias fantásticas - do tipo de homem que ele foi!
Onça-Tigre, junção dos atributos utilizados na capoeira por diversos capoeiristas célebres, muitos deles bastante conhecidos da capoeiragem outros nem tanto, como Jair Filhote de Onça, outra grande figura dentre os alunos do Mestre Bimba; Onça e Oncinha, filhos de nosso respeitado Mestre Joel, radicado em São Paulo, que se tornaram verdadeiras lendas nas rodas da grande cidade, nosso admiradíssimo Mestre Onça-Negra, filho adotivo de Mestre Bimba, que tem sua presença nas melhores rodas e eventos, sempre marcada pela sua competente capoeira, sua impressionante capacidade de lidar com o atabaque e toda a sua simpatia; entre tantos outros que tiveram essa competência de serem nominados "onça", entre eles, no entanto, figura um que além de onça era também tigre... Onça-Tigre!
Para iniciar parte das estórias do Mestre Onça-Tigre, vou lembrar uma de suas mais entusiásticas narrativas, que foi
A Saga de Onça-Tigre frente aos Mariners americanos na 2a. Guerra Mundial
Em meados da década de 30, do século XX, Onça-Tigre recebeu a visita de um amigo e conterrâneo de sua cidade natal, Mossoró, Rio Grande do Norte, o qual estava em profunda depressão, por ter perdido o grande amor de sua vida!
Nesse tempo, as depressões masculinas eram "curadas" no cais do porto, onde residiam os melhores "remédios" de então, bares noturnos, cerveja gelada, música boa, ótimas prostitutas e um bom amigo como guia, nesse caso Onça-Tigre e seu camarada que estava vivendo a desventura e o sofrimento...
Tudo ia bem na noite, até que surgiu uma confusão entre um marinheiro americano e um outro, inglês, ambos servindo em navios atracados no porto de Salvador, mas contando com a devida dose de animosidade entre os cidadãos de diferentes países...
O marinheiro americano, após uma breve discussão com inglês por causa da disputa pela companhia de uma prostituta, parte para um confronto pelas vias de fato e soca violentamente o marinheiro inglês, que junto com seu pequeno grupo de amigos é obrigado a deixar o recinto, deixando o americano bastante envaidecido com sua vitória inconteste!
Até o ponto em que ele tenha derrotado o inglês não incomodou ninguém, a não ser os ingleses que tiveram que sair corridos do lugar, mas o americano começou a abusar de sua superioridade e decidiu que a orquestra só iria tocar música americana naquela noite.
Onça-Tigre que não era de aceitar esse tipo de arbítrio, resolveu comprar a briga e foi até a orquestra e pediu um samba ao maestro e chamou para dançar justamente a prostituta que havia sido o pomo da discórdia entre as armadas americanas e inglesa.
O maestre vacilou em atender o pedido para tocar o samba, mas Onça-Tigre o persuadiu com um cochicho no ouvido avisando que quebraria os instrumentos se ele não executasse o samba!
Convencido o maestro, restava convencer a moça que estava também muito assustada com a idéia de continuação na confusão a que já havia se envolvido...
Mas Onça-Tigre era um gentleman e demonstrou a moça que não a envolveria, e que queria apenas que o americano tentasse impedir que o samba fosse executado e conversaria com ele, longe dela para que a mesma não fosse prejudicada no entrevero...
Acertadas as condições iniciaram bailando no salão, quando o americano se dirigiu ao maestro que apontou o autor do pedido do samba, logo ali, no meio do salão, único par de dançarinos que ousavam tal feito.
Aproximando-se do casal, o americano não queria muita conversa, mesmo porque o seu idioma não ajudava muito a argumentar a questão da dança, da música e de sua autoridade internacional ali no recinto.
Foi direito ao assunto, tentando golpear Onça-Tigre com um soco direto, demonstrando suas habilidades de boxeador, além de seus quase cinquenta centímetros mais altos que Onça Tigre.
Com sua altura de no máximo 1,60 metros, ele pareceu ao americano ser um vítima muito mais fácil que o marinheiro inglês, que ja havia sido derrotado. Ledo engano!
O americano desconhecia a capoeira pesada que Onça-Tigre jogava!
A tentar golpear o baixinho brasileiro, ele se expos o suficiente para tomar uma "trocadilha de joelho" que era um dos golpes preferidos de Onça-Tigre, representado por uma joelhada surpreendente no plexo solar do marinheiro norte-americano, o qual diante do traumatismo provocado pela joelhada não teve como não se curva com ambas as mãos na altura do estômago.
Nesse momento o que já parecia um atropelamento virou uma tragédia digna dos filmes que mais tarde passariam a ser feitos pela violenta indústria holiudiana, pois o capoeirista brasileiro ainda deu um segundo golpe no mariner, dessa vez em pleno rosto, desfigurando totalmente sua face até então cheia do seu orgulho de boxeador competente.
Ao segundo golpe, nada mais restaria ao estadunidense que cair fatalmente ferido, sangrando muito e provocando uma comoção no local, primeiramente nos seus companheiros de mesa, outros tres marinheiros, que também vieram em cima de Onça-Tigre decididos a cobrarem alto pelo que fizera ao companheiro deles...
O próximo a se aproximar não sabia direito o que fazer e tentou se atirar sobre o baixinho capoeirista, desconhecendo outra de suas artimanhas: o balão de cintura!
Onça-Tigre o projetou com a mesma velocidade em que o mesmo veio sobre ele rumo à escada do estabelecimento!
O amigo marinheiro desceu rolando de maneira pouco organizada as escadas de madeira, chegando ao final da mesma já completamente desmaiado e cheio de ferimentos visíveis e provavelmente muitos traumatismos internos, ficando ali mesmo apagado!
Um terceiro mariner ainda tentou também entrar na dança e salvar a honra da marinha norte-americana, mas foi violentamente jogado pelo tigre dentro de um armário guarda-chapéus e guarda-chuvas, ficando também lá dentro com as portas fechadas por Onça-Tigre!
O local virou uma confusão generalizada, com todo mundo correndo, ou para fugir ou para entrar na briga, quando alguns outros soldados brasileiros que ali estavam reconheceram o então tenente do CPOR baiano, tenente Carvalho (Milton Freire de Carvalho, o Onça-Tigre) e ofereceram sua ajuda para botar os demais estrangeiros para fora do recinto, carregando consigo os seus companheiros derrotados, sagrando muito e ainda desmaiados!
Dia seguinte os jornais da capital baiana trazia a manchete devidamente imparcial: "marinheiros americanos espancados por capoeiras", contando que alguns deles tiveram que voltar as pressas aos Estados Unidos para receberem socorro e tratamento médico.
Mestre Bimba com seu jornal debaixo do braço encontra Onça-Tigre e lhe sorri discretamente: "foi voce, né, Nirto!? eu sei!"
Onça-Tigre balança a cabeça confirmando a hipótese do mestre. Ele havia reconhecido a joelhada, e acreditava que somente uma pessoa era capaz de dar tal resultado em um golpe de trocadilho de joelhos: Onça-Tigre.
Esse é o grande Onça-Tigre em uma de suas estórias.
Vamos contar outras! Vamos sim.
Vamos registrar essas estórias, para que mais tarde elas possam ser História. Relacionando os grandes mestres que a capoeira tem produzido em sua história discreta. Subterrânea à história oficial. Longe da verdade da mídia. Longe do interesse das forças dominantes de nossa socidade.
Mas do maior interesse para quem quer saber dos heróis do povo, guerreiros capoeiras. Anonimos lutadores na voltas do mundo!
Yêh, viva Onça-Tigre, camará!!!
Mestre Skisyto